10.4.05
tropega

Ando pela rua molhada, cor de chumbo. Sinto-me zonza e quente, tenho a sensação de ter estado a beber, o fundo da garganta arranha-me e o peito está cheio de ar quente, que teima em não sair. Está frio, pareço uma caldeira andante, ligeiramente a tombar na direcção das valetas. Estou vestida com roupas desconfortáveis, sinto a camisola picar-me nas costas e nos antebraços, como se fosse sintético ou viscose. A humidade transforma-se em suor na minha cara, que escorre para o pescoço e entranha na gola picante. Coço-me constantemente e pareço sufocar de roupa e calor. Penso, é só mais um pouco e vou chegar, vou poder despir esta roupa que me sufoca, vou poder tomar um duche fresquinho. Vou andando, trôpega, a estrada está escura e continua em linha recta, não sei se é noite ou dia, não vejo luzes, apenas estrada que não acaba. Sinto-me a pesar cada vez mais, acho que já tenho um sobretudo vestido também. Paro e sento-me no chão molhado, tento tirar a roupa mas não estou a conseguir, os movimentos estão a falhar, não acerto com os botões, os braços parecem não ter força para passar a camisola acima dos ombros, prende nos cotovelos e no nariz, arranha-me a nuca e faz-me parar, a arfar, cansada. Não consigo, não passa, puxo outra vez para baixo a camisola e tento tirar as calças, deito-me no chão frio, com a água a fazer remoinhos nos sovacos, ergo a cabeça e cravo o queixo no peito, com a força que faço para tentar fazer as calças deslizarem. Estão presas nas ancas, acho que tenho as collants tão molhadas que fazem atrito no movimento. Desisto, cansada e ensopada. Acordo enrolada no lençol, quente.

Posted at 11:29 by constantina
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21.10.04
telas

Estou a andar num corredor estreito em direcção a uma piscina interior, vejo no fundo do corredor escadas de acesso à água e, do lado oposto destas outras escadas que continuam noutro corredor. Cheira a água quente ligeiramente perfumada e, à medida que me aproximo, vejo os reflexos de água no tecto e no que agora descubro ser uma divisão rectangular cujo chão é uma piscina não muito funda. Aqui, dentro de água, estão duas pessoas, uma reconheço como sendo um homem (meu pai), a outra é uma mulher que eu sei que está com ele mas não sei se será a minha mãe. Sinto-me mais nova, devo ter uns vinte anos. Eles são alourados de olhos claros e esguios. Sinto que está alguma coisa para acontecer que nos vai perturbar a todos embora não haja troca de palavras. No corredor que continua o que eu percorria, a seguir à piscina, aparece uma miúda mais nova que eu, sei que é minha irmã. Agora já estamos todos num outro corredor em direcção a uma sala grande, consigo ver no fundo que a parede maior é panorâmica com vidraças do chão ao tecto. Tem uma varanda pequena com um varandim de ferro. Atrás de nós surge um rapaz que eu sei que é meu irmão, vem num passo apressado e está alterado. Estamos a falar com o meu pai, dizemos-lhe que já é tempo, que não podemos continuar assim. Ele retira do lado esquerdo da anca um objecto metálico arredondado com duas tampas, abre-as e vê-se um encaixe rectangular. Do lado direito da anca retira um volume rectangular também metálico, mas mais claro, que encaixa no outro, fechando as tampas. De repente lá fora altera-se a vista, aproximamo-nos das vidraças e é um pôr-do-sol alaranjado. Até onde a vista alcança, ligeiramente abaixo de nós, vêem-se grandes telas redondas, quase tubos, muito compridos, presas a estruturas de metal ferrugento. Está tudo cheio de poeira acastanhada que dá um ar sujo ás estruturas. Em volta destes tubos de tela vêem-se muitas pessoas, pairam no ar e todas usam o que reconheço serem skis, ou uma espécie, onde têm os pés encaixados. Reparo que têm vários formatos, alguns são curtos e mais redondos, quase só ocupando o espaço do pé. Outros são compridos, começam no pé alongam-se com a ponta arrebitada para cima, ou totalmente dobrada para baixo com pontas bicudas. Pairam no ar muito altas, aparentemente a falar umas com as outras, um grupo de três aqui, cinco mais longe, um solitário a olhar para nós. Avanço para a varanda e do lado esquerdo está um corpo pendurado, vejo-lhe primeiro o crânio, com pedaços de corda a atá-lo, à volta da garganta. Os braços estão abertos e o corpo parece ter sido atado todo de forma a deixar os braços abertos, presos, como duas hélices fixas, até aos pés está atado com cordas, muito unidas, certas. Dos pés saiem duas cordas que atam o corpo a um dos ferros de uma tela que paira sobre nós. Horrorizada fecho os olhos. Acordo sobressaltada.

Posted at 00:06 by constantina
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6.9.04
nodosos

Imóvel, nua, de olhos fechados. Sinto-me presa e abafada. mexo-me um pouco e sinto picadas fortes nas costas. Respiro com dificuldade, há qualquer coisa que me prende as costas, as costelas, tento encher o peito de ar mas prende de dor, fica meio cheio só, respiro mais rápido por isso. Mexo os braços até ao cotovelo e tenho a sensação de estar a ser perfurada pela articulação do cotovelo, onde faz choque. Frustrada estico-me de uma vez só, empurro as pernas para a frente e pontapeio o ar que não vejo, estico braços e dorso e arrepio a cabeça para trás, num movimento só impulsiono-me toda. Sinto a carne a dilacerar, rasgar, uma vaga de dor percorre-me os músculos que aquecem de repente. Com o espasmo abro os olhos e, no escuro, pressinto a minha prisão desfeita. Espinhos nodosos rodeiam-me e espreitam-me expectantes. Acordo presa, imóvel nos lençóis.

Posted at 23:40 by constantina
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9.8.04
plástico

Num café, a sentir o calor dos corpos à minha volta, barulho ensurdecedor constante de risos e conversas altas. Nua, sentada na cadeira de plástico a colar a pele, um rio de suor por entre os seios que escorre pela barriga. Estou a beber um copo de àgua, parece viscosa, cola-se-me aos lábios e e não escorre, fica presa no céu da boca. Mantenho-me inerte, sinto-me como uma estátua que derrete lentamente. Alguém passa por mim e chama o meu nome, levanto as pálpebras lentamente para o suor escorrer para os cantos dos olhos. Não está lá ninguém, as mesas estão vazias, o copo vazio, não me consigo mexer e tenho folhas secas a dançar nas minhas pernas, uma folha de jornal bate suavemente num dos meus braços. Estou coberta de pó e a mesa tem ferrugem nos bordos dos pés. Acordo fria e assustada.

Posted at 15:22 by constantina
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12.6.04
movimento

Parada no meio da estrada, está muito calor e não sopra brisa. Estou vestida com roupas leves, mal as sinto na pele. De ambos os lados da estrada estão pessoas, passam por mim muito depressa, como se fossem rastros de luz. Tento focar a visão numa só pessoa mas não consigo, vejo côres de roupas, uma perna ou um braço mais estático aqui ou ali mas não consigo vêr uma figura humana por inteiro. Até as árvores parecem mexer-se mais rápido, suponho que esteja numa avenida numa cidade porque consigo distinguir edificios e àrvores e até um rastro no chão que me parece ser o passeio. Os edifícios estão esbatidos, não lhes consigo encontrar as esquinas nem a definição das janelas, parece que se mexem, oscilam tão rápido que não consigo vêr o detalhe, é esquisito, parecem esboços de prédios feitos de materiais reais. As árvores são manchas verdes e castanhas com uma folha aqui e ali definida, como se alguém borrasse a pintura e deixasse por instantes só uma folha para termos a certeza que é uma árvore. Sinto-me zonza e quase febril do calôr, não tenho forças para andar, estou desiquilibrada, sento-me no chão e descubro que está fresco, sabe-me bem. Fecho os olhos por instantes e páro os movimentos dentro da minha cabeça, fica estática a imagem da avenida, deixo-me estar assim e deito-me completamente no chão. As tonturas passam e sinto-me adormecer. Acordo fresca, de encontro a uma parede.

Posted at 10:07 by constantina
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6.6.04
ovo

Estou deitada e abraçada aos meus joelhos, abraçado a mim está ele e aninhado na minha barriga está um ser pulsante. Formamos um novelo quente que respira o mesmo ar. Está escuro e cheira à nossa respiração. De repente oiço um barulho forte que ressoa dentro de mim, ponho a mão no ser e ressoa também, são pancadas fortes que nos agridem. Tenho os olhos abertos e estou assustada, estamos contraídos. As batidas são ensurdecedoras, tento começar a esticar-me mas antes que isso aconteça fico cega de luz, duas mãos esburacam à minha frente e aparece uma luz intensa. Começo a perceber que estava dentro de qualquer coisa parecida com um casulo ou um ovo, outras duas mãos esburacam atrás dele, consigo perceber os raios de luz. Sinto frio e o ser começa a tremer, estico-me e começo a mexer-me no meio da confusão. Estou fraca, não tenho forças para sair dali. Acordo entorpecida, fria.

Posted at 13:13 by constantina
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1.6.04
colheres

Estou deitada numa mesa, nua. Sinto duas mãos quentes e grandes dos dois lados da minha cabeça, tapam-me as orelhas ligeiramente. Tenho os olhos fechado e sinto vento na pele, frio, arrepia-me. Sinto um toque metálico na barriga, encolho-me mas o calor das mãos conforta-me, estico-me novamente. Agora um novo toque à volta do umbigo, mais quente, não me sobressalto. São muitos toques seguidos e eu tenho a barriga a ferver, estranho já e abro os olhos. Espreito em direcção dos pés e estão duas mãos de cada lado de mim com colheres a escavarem-me a barriga. Acordo assustada.

Posted at 13:27 by constantina
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20.5.04
esbranquiçadas

Estou junto a uma janela, parece-me que é um logradouro, a casa está numa das encostas de um vale, a vista da janela é para um riacho que corre no fundo e para a outra encosta. Está sol alto e calor. Não há casas na vista, até onde os meus olhos alcançam são árvores esbranquiçadas, com troncos curtos e ramos muito direitos, não muito grossos. Não têm folhagem, no chão a erva está verde mas parecem despidas como no inverno. São todas mais ou menos do mesmo tamanho, penso que devem ter sido plantadas, silvicultura, a natureza não as espalharia assim tão uniformemente, nem as plantaria todas ao mesmo tempo para terem todas a mesma altura. Vem um vento fresco que as faz oscilar ligeiramente e ouvem-se barulhos secos ao ritmo do ondular do vento, penso que devem estar ressequidas e a estalar. Uma delas mexe-se e foco a atenção, esboroa-se em pedaços quase iguais, os ramos estalam por fissuras separadas pela mesma distância. Foco a minha atenção nos restos espalhados, quase não consigo vêr por entre a erva alta viçosa, tento perceber que tipo de madeira é. Ossos, são ossos, de repente vislumbro-os em todas as àrvores e em restos de árvores por ali. Amarelados e arredondados nas pontas, como que lavados e dispostos.

Posted at 10:24 by constantina
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17.5.04
bafos

Estou sentada no chão de madeira, de barriga para baixo e os joelhos flectidos, as pernas a abanarem ligeiramente. Tenho os braços apoiados nos cotovelos e olho em frente, o olhar percorre toda a extensão visível do chão. É escuro e cheira a madeira, consigo distinguir tábuas corridas, desgovernadas, como se o chão tivesse sido enxertado de madeiras diferentes durante muito tempo em muitas direcções. Estou rodeada de reflexos de madeira de todas as matizes castanha, rosa, preta, amarela, laranja, e todas as outras variantes esverdeadas por anos de humidade. Sinto-me húmida, como se tivesse estado à chuva, cheiro a pele molhada e quase não consigo respirar com o cheiro de madeira molhada que me rodeia. De repente dos interstícios das tábuas saem pequenas nuvens, bafos brancos, sinto debaixo do meu corpo a pressão destes bafos contra a minha pele molhada. Abro a boca e deito também um bafo forte esbranquiçado. Acordo sobressaltada com restolhar, suada.

Posted at 20:27 by constantina
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5.5.04
pernas

Fria, deitada de barriga para cima, os olhos fechados. Tenho os braços ao longo do corpo e as mãos cravadas nas ancas, a sentir os ossos frios. Estico-me toda e arqueio um pouco as costas com o esforço, as dedos dos pés espetados a furar o ar. O chão é duro, rijo mas quente, volto a forçar as costas a colarem-se ao chão. Sinto o toque de pele nas pernas, pele quente, com pelos que roçam nos meus. Deixo-me estar de olhos fechados a prolongar o toque suave, só na perna direita, devagar, como quem acaricia sem dedos. Agora na perna esquerda um outro toque, pele mais fria, sem pelos, lisa de depilação quase consigo adivinhar. Não consigo aguentar mais os olhos fechados, a curiosidade é mais forte que a sensação de toque. Levanto a cabeça ligeiramente e espreito na direcção dos pés. Na penumbra vislumbro duas pernas que se entrelaçam nas minhas, da anca para baixo pareço suspensa no ar e pernas cruzam-se com as minhas, não lhes consigo vêr mais do que alguns cêntimetros mas parecem ser todas diferentes. A sensação de toques continuos diferentes causa-me arrepios e tento desviar as pernas instintivamente mas não consigo, são demasiadas pernas que enpernam e perneiam... Acordo esquisita, irrequieta, com um ligeiro formigueiro nas pernas.

Posted at 10:12 by constantina
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Bem-vindos aos Draeme que nascem dentro de mim.




   





 






 
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